Leio, com um misto de curiosidade e desdém, o artigo publicado na FOLHA intitulado: "Crítico britânico ataca "envelhecimento" da música erudita", de autoria do senhor Irineu Franco Perpetuo.
A curiosidade, é proveniente do fato de ainda haver gente que acredita seriamente na opinião dos críticos, principalmente quando estes são estrangeiros e o desdém, é pela “babaquice” de reproduzir essas baboseiras como verdade absoluta.
O fato do britânico Norman Lebrecht, de 54 anos, haver sido colunista e chefe da equipe que cobre a área cultural do "Evening Standard", não significa nada. Os tolos também envelhecem e muitos chegam a escrever em jornais e revistas.
Falar sobre as mazelas da música de concerto é chover no molhado. Todos estamos cansados delas e uma das principais é exatamente a opinião dos "donos da verdade".
Escrever livros provocadores como "O Mito do Maestro" (92) pode até ser interessante, dependendo do Maestro que tomarmos como protótipo.
Agora dizer que "as pessoas se tornam conservadoras na velhice, pouco antes da morte" é de uma imbecilidade à toda prova. Beethoven tornou-se conservador com a idade? e Debussy ? e Stravinsky e ...e ...e ...
Eu digo que é muito mais triste, ver um velho que não soube envelhecer, querendo mostrar-se jovem, por não haver conseguido desenvolver um mínimo de bom senso, capaz de permitir-lhe avaliar situações que dizem respeito, não ao conservadorismo mas ao desenvolvimento da capacidade intelectual e da sensibilidade necessárias para apreender os modismos e as mudanças sociais, que diga-se de passagem, nada tem a ver com o gosto musical e nem com "mercado da música".
No entanto, tenho minhas dúvidas sobre as informações veiculadas pelo articulista. ou o Sr. Norman Lebrecht é incoerente e não diz coisa com coisa, ou foram-lhe atribuídos pensamentos e palavras que não correspondem à sua verdade.
O que se pode deduzir de um indivíduo que denuncia o "conservadorismo na velhice" e logo em seguida diz: "Temos regentes jovens muito bons, dos quais ninguém ouviu falar, pois as oportunidades de mídia estão fechadas" (?) e logo a seguir: "As orquestras se tornaram velhas e conservadores e não estão preparadas para correr riscos". Ora, quem faz a programação é "o jovem regente muito bom", ou a direção das Orquestras? Se é o jovem regente, então ele é conservador e portanto não tão bom como foi classificado. Se as Orquestras seria interessante verificar se a sua Diretoria é de velhos conservadores ou de jovens medrosos.
Ainda há pouco a direção da Rádio Cultura (SP) extinguiu a Sinfonia Cultura, que por sinal era diferenciada das demais pelo fato de privilegiar a nova música brasileira, e acredito que o Sr. Irineu Franco Perpétuo esteja perfeitamente a par disso.
Pouco adiante, o artigo faz referência ao “poder absoluto dos regentes, aliado à cobiça dos “managers”, os quais”.
segundo o autor, inflacionaram os cachês de astros deprimiram o nivel artístico das execuções, levando as orquestras à bancarrota". Neste ponto já não estou entendendo mais nada. Se o poder dos regentes é absoluto e muitos deles são jovens e talentosos, é a eles que devemos atribuir o "conservadorismo? ou ao público que está entre os 45 e 64 anos? como foi dito anteriormente.
É atribuído ainda ao jornalista inglês a profecia: "a música de concerto pode até não morrer, mas se tornará (sic)- seria bem melhor dizer "tornar-se-á" - um item de antiquário", o que contradiz o final da frase: "a música erudita vai permanecer como um dos ápices da criatividade humana" e conclui - agora já não sei mais se são palavras do inglês ou do brasileiro : "porém restrita a uma minoria que encolhe dia a dia".
O período é concluído com nova acusação à mídia: "pois não há exposição na mídia e porque não é mais uma parte central de nossa educação".
Quanto à exposição na mídia estamos em pleno acordo, já quanto à parte central da nossa educação, só posso dizer que a minha e a de grande parte dos jovens cultos de todo o mundo, continua a ser proporcional ao que sempre foi, basta verificar a quantidade de orquestras de jovens, os inúmeros Festivais de música Erudita espalhados pelo mundo, os vídeos apresentados pelo ilustre e culto Senador Arthur da Távola, o surgimento de interpretes jovens provenientes dos quatro cantos do mundo, para ver e sentir o disparate de tal artigo.
Uma grande verdade porém, encerra brilhantemente o artigo : "Estamos criando crianças que não sabem que a música erudita existe".
Eu apenas acrescentaria: "e adultos também".
Escrito por Sérgio às 20h29
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